Acidente Radioativo em Goiânia

O Fato

Quando aprendemos na escola que "Sr. CaBaRa Bebeu Magnésio" e "LiNaK Roubou o Césio na França", mal poderíamos pensar que um dia isto fosse acontecer no meio do Brasil, com pessoas que tinham nomes e histórias comuns e que nunca entraram num laboratório de química e por certo nunca tiveram que decorar estas frases para lembrar de metais alcalinos numa prova.

Em 13 de setembro de 1987 foi roubado um aparelho de radioterapia abandonado que continha uma fonte de cloreto de césio do Instituto Goiano de Radioterapia. O "roubo" foi praticado por Roberto Santos Alves e Wagner Mota. A cápsula com cloreto de césio foi aberta no quintal da casa onde morava Roberto Alves e seu amigo Wagner Mota, que venderam em 18 de setembro de 1987 a peça, chumbo e fonte, a um ferro-velho na Rua 57, nº 68, em Goiânia, de propriedade de Devair Alves Ferreira e Ivo Alves Ferreira.

Atraídos pela luminescência do césio, adultos e crianças o manipularam e distribuíram entre parentes e amigos. O "pó venenoso", contendo cloreto de césio, foi manuseado pelas pessoas que o deixavam onde colocavam as mãos os pés ou onde se sentavam; foi distribuído para ser levado para casa em vidrinho, colocado no bolso, esfregado no corpo. Foi varrido para baixo de armários, para a cozinha, para o quintal. Foi lavado pela chuva e carregado pelo vento.

Ao ser violada, perdeu, aproximadamente 90% do seu conteúdo, com o césio em pó espalhando-se num pequeno pedaço de tapete colocado sobre o chão, à sombra de duas mangueiras. Parte do material ficou no recipiente, mais tarde levado para outro local.

Um complexo encadeamento de fatos resultou na contaminação de três depósitos de ferro-velho, um quintal, uma repartição pública e diversas residências e locais públicos. (Rua 57, nº 68 [casa do Roberto]; rua 63, nº 19, fundos [casa do Ovídio]; rua 26-A e rua 15 [ferro-velho I - Devair]; rua 6, quadra Q, lote 18 [ferro-velho II - Ivo]; rua P 19, lote 4 [ferro-velho III - Joaquim]; rua 17-A, quadra 70 A, lote 26 B [casa da fossa-Ernesto Fabiano]; rua 16-A nº 792 [Vigilância Sanitária])

A cápsula e seus fragmentos foram manipulados a céu aberto, o que contaminou diretamente o solo. Parte do material foi transportada inocentemente por pessoas, inclusive crianças, encantadas com a luz emitida por aquele pó sem cheiro, nem quente nem frio, sem gases, inofensivo.

Devair presenteou sua sobrinha Leide, de seis anos, com uma porção do pó cintilante; a menina espalhou-o pelo corpo e comeu pão com as mãos sujas, ingerindo césio.

Um dos companheiros de Devair esfregou o pozinho na pele para sentir o brilho no próprio corpo; outro guardou um pouco no bolso, pegou um ônibus e foi para casa, enfeitou a geladeira com uma parte e guardou o resto embaixo da cama para ver o brilho durante a noite.

Os primeiros sintomas da contaminação - náuseas, vômitos, tonturas, diarréia, apareceram algumas horas após o contato com o material. As pessoas procuravam farmácias e hospitais e eram medicadas como vítimas de alguma doença infecto-contagiosa.

Somente em 29 de setembro, um dia após a esposa e um empregado de Devair terem levado parte do aparelho para a sede da Coordenadoria de Vigilância Sanitária da Secretaria de Saúde, aqueles sinais foram identificados como característicos da síndrome da radiação. Alguns pacientes já tinham sido recebidos pelo Hospital de Doenças Tropicais de Goiânia (HDT) e um dos médicos consultou a Secretaria de Saúde de Goiás, cabendo ao físico Walter Mendes Ferreira, que ali trabalhava, dar o alarme.

Mendes obteve da agência local da NUCLEBRÁS um cintilômetro e foi até a sede da Vigilância Sanitária, onde a peça da cápsula tinha sido posta sobre uma cadeira, o medidor confirmou a hipótese; ali estava a origem de tudo.

Walter Mendes e o físico Flamarion B. Goulart, que fora responsável pelo equipamento no IGR, sugeriram as primeiras providências, como a evacuação dos locais em que a fonte permanecera e o recolhimento dos possíveis contaminados no Estádio Olímpico , onde foram improvisadas barracas para alojamento.

Chegaram à cidade técnicos do Instituto de Radioproteção e Dosimeria (IRD) e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), ambos da CNEN, médicos e físicos brasileiros e estrangeiros, além de estudantes da Escola Técnica Federal de Goiás e o professor José Carlos Marques Freitas e seus alunos da ETF de Química-RJ. Além destes, foram recrutados os serviços de FURNAS e NUCLEBRÁS para darem assistência às vítimas.
 

Tratamento Médico

Em 3 de outubro, embarcaram três pacientes e no dia seguinte mais quatro pacientes para serem internados no Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro. Cerca de 40 pessoas foram segregadas em Goiânia, internadas no Hospital Geral do INAMPS e mantidas em quarentena no Centro de Recuperação da FEBEM.

A CNEN fez pronunciamento oficial em cadeia de rádio e televisão ainda quando nem sabia o que tinha pela frente.

Devair, com um eritema na face, indicava contaminação com alta taxa de dose de radiação na cabeça e a menina Leide, apontava alta contaminação interna, os detectores, quando próximos dela, disparavam.

Nesse primeiro momento o tratamento das vítimas em estado menos grave consistia, basicamente, em descontaminação externa com lavagem, usando água e sabão ou um detergente suave, para retirar da pele o pó e resíduo e melhorar as condições de eliminação das partículas gordurosas. A rotina consistiu em banhos e monitoração para verificar se os índices diminuíam. Em alguns foi usado vinagre, que é um ácido fraco, de ação abrasiva suave.

Potássio e césio hidratados permitiram a descontaminação interna, por coprecipitação, através da preparação de resinas catiônicas sintéticas carregadas com Azul da Prússia (ferrocianeto férrico). Como elas não podem ser aplicadas a seco, foram preparados géis, cremes e pastas d'água, espalhando-as sobre a pele dos contaminados.

Essa solução química provocou resistência da parte médica, mas, foi preferível, à toxidade do césio, a de uma resina, que é mínima. Foram obtidos bons resultados na eliminação do césio.

Foi avaliada a seguinte dose para cada paciente:

Devair Alves Ferreira 700 Rem
Maria Gabriela Ferreira 550 Rem
Leide Alves Ferreira 600 Rem
Roberto Santos Alves 600 Rem
Admilson Alves de Souza 500 Rem

A CNEN monitorou 112.800 pessoas em Goiânia. Identificaram 249 pessoas com nível de contaminação acima do normal, 20 foram hospitalizadas, sendo que uma delas (Roberto Santos Alves, 21 anos) teve o antebraço direito amputado em 14.09.87 e 4 faleceram. 

Roberto Alves

A menina de 6 anos, Leide Ferreira , foi a primeira vítima a falecer, às 11:55 em 23.10.87. Sua tia, Maria Gabriela Ferreira , 37 anos, esposa do dono do ferro-velho, foi a segunda a falecer, às 18:10 do mesmo dia. 


Leide das Neves Ferreira, 6 anos, primeira vítima a falecer, ingeriu césio 137 com pão.

Devair Alves Ferreira, passou 1 mês no HNMD-RJ, aqui, no Hospital Geral do INAMPS-GO.

Israel Batista dos Santos, 22 anos, terceira vítima, acentuada diminuição de glóbulos brancos no sangue, coma com parada cardio-respiratória.

Israel Batista dos Santos, 22 anos, terceira vítima, acentuada diminuição de glóbulos brancos no sangue, coma com parada cardio-respiratória.

Lucimar e Geraldo Guilherme no Hospital Geral do INAMPS-GO.

Quando as duas primeiras vítimas faleceram, os patologistas do hospital se recusaram a realizar as necrópsias devido ao risco de contaminação. O Departamento de Medicina Legal da Unicamp foi convidado a participar como órgão pericial oficial no caso, cabendo aos médicos legistas examinar as vítimas e emitir um laudo para comprovar as responsabilidades. 

Aberração cromossomial.

Os médicos da Unicamp entre outros do IML do Rio de Janeiro, foram assessorados pelos físicos da CNEN.

Os empregados do ferro-velho, Israel Batista dos Santos , 22 anos, e Admilson Alves de Souza, 18 anos, foram respectivamente a terceira e quarta vítimas a falecerem no Hospital Marcílio Dias, num período de 6 dias.

Após as necrópsias, os corpos foram acondicionados em lençóis de chumbo e urnas especialmente fabricadas para inumar estes cadáveres e levados para Goiânia.

Devair Ferreira  escapou, ficando até 4 de novembro no Marcílio Dias, retornando à Goiânia com seu irmão Ivo, o amigo Ernesto Fabiano e Roberto Alves, sendo internados no Hospital Geral do INAMPS. No Rio ficaram, Edson Fabiano e Luiza Odete dos Santos, Geraldo Guilherme da Silva , Maria Gabriela de Abreu, mãe da segunda vítima, e Kardec Sebastião dos Santos.

Fora as mesuras feitas por Geraldo, esquizofrênico, Devair parecia levar a situação com humor, cobrava dinheiro dos repórteres para falar e ser fotografado, ameaçou greve de fome para ver a atriz Betty Faria, que o visitou no INAMPS. Atribuiu à combinação de cerveja e cachaça sua resistência frente à radiação. Mais tarde, sabe-se que casou novamente.

No decorrer dos anos outras 3 pessoas faleceram. A CNEN iria manter acompanhamento no local por 5 anos.

Foi criada, pelo governo do Estado, a Fundação Leide das Neves Ferreira.

Respeitando as proporções, Goiânia significou para o Brasil o que foi Chernobyl para a União Soviética.

Rejeitos do Acidente Radioativo de Goiânia

Foram sacrificados com veneno na ração: 40 aves, 5 porcos, 2 cães e 2 coelhos; acondicionados em tambores.

Utilizou-se rastreio aéreo (helicóptero) para determinar se haviam outras áreas contíguas com níveis de radiação anormal. 720 pessoas atuaram no processo de descontaminação durante 82 dias.

A contaminação de plantas, verduras, ervas, raízes, frutos ficou circunscrita a um raio de 50 m de alguns dos principais focos de contaminação, atingindo todas as partes das plantas. No dia 07.12.1987, as mangueiras foram arrancadas e o solo altamente contaminado começou a ser escavado. Por vários dias houve grande movimentação de terra, parte da qual se espalhou pelas redondezas na forma de poeira, apesar das chuvas e da irrigação proposital com o intuito de evitá-la.

Não se sabe a quantidade de césio que se perdeu, porque são imprecisos os cálculos sobre a recuperação do material radioativo. Através da rede de águas pluviais e de esgotos, o Cs137 atingiu parte do curso dos córregos Capim Puba e Botafogo e do ribeirão Anicuns, e finalmente o rio Meia Ponte, em cuja margem direita ficaram os principais focos. Não se detectou o radionuclídeo em solução na água.

Peixes coletados em novembro de 1987 no Meia Ponte, a jusante da represa Jaó, tiveram uma concentração de 200 Bq/kg -próprios para consumo. A água que abastece a cidade é captada na margem esquerda da bacia do Meia Ponte, não foi afetada pelo acidente.

Para descontaminar cimento e concreto, foram usadas misturas de ácidos com alúmen e azul da prússia, combinado com ação mecânica de lixadeiras. Para azulejos de cozinhas e banheiros, usou-se o ácido fluorídrico, que remove o césio com maior rapidez, devido à estabilidade química do cristal iônico do CsF.

Pisos encerados e objetos que acumulam gordura foram lavados com soda cáustica e detergente. No solo, foram utilizadas toalhas impregnadas com azul da prússia. 99% da terra mais contaminada estava nas camadas superficiais, que tinham de 100 a 150 roentgens/h de taxa de exposição. Estes solos foram retirados e substituídos por solo limpo ou concretados. As taxas de radiação eram muito altas, obrigando os técnicos a permanecer na rua 57 apenas alguns segundos, quando recebiam doses de 50 a 100 mrems. A descontaminação foi encerrada na semana do Natal.

O risco maior era lidar com a lama contaminada. Todo esse trabalho foi feito debaixo dos maiores aguaceiros, verdadeiros dilúvios.

Os rejeitos produzidos no hospital carioca, depois de discussão entre governadores de Rio e São Paulo, foi para o IPEN-SP; cerca de 945 kg acondicionados em 31 tambores.

Outros aspectos foram abordados durante o acidente além do método de tratamento a oferecer. Questões sobre onde depositar definitivamente rejeitos radioativos e de quem é a responsabilidade de fiscalizar equipamentos de radioterapia andaram em paralelo a esta desgraça.

O despreparo da CNEN para tratar do assunto deixou pairar de norte a sul a tarefa de sepultar os rejeitos. Ora falavam em São Fidélis-RJ, Governador Valadares-MG, Canudos dos Dantas e Santana dos Matos-RN, Valença e Itainópolis-PI e por fim Serra do Cachimbo-PA, onde fica uma base da Aeronáutica.

O governo do Pará protestou dizendo que o Estado não é a lixeira do Brasil. O governo de Goiás fez nota oficial aliviado por não ter que assumir o depósito de rejeitos em seu território. Depois veio a idéia de legislar quem produzisse que ficasse com seu lixo, dando a idéia de que poderíamos ter dezenas de depósitos instalados no país.

O índios caiapós foram protestar pintados para a guerra em frente ao Palácio do Planalto, para defender a Serra do Cachimbo e seus rios.

O Estado de Goiás foi desconvidado de participar da Feira da Providência, cidadãos goianos andavam com atestado de não-contaminação, carros com placa de Goiás foram apedrejados em São Paulo e até o Egito quis cancelar importações do Brasil.

No fim deste capítulo ficaram depositados, provisoriamente em definitivo, em Abadia, a 20 km de Goiânia, em 700 caixas metálicas, 5 containers marítimos, 2.000 tambores contendo 1.600 m³, equivalentes a 1.700 t.

A CNEN está longe do ideal, pois ainda não dispõe de um cadastro mais perfeito das fontes radioativas em uso no País e melhores condições de atendimento em situações de emergência por falta de recursos financeiros.

Uma auditoria do Tribunal de Contas da União realizada no segundo semestre de 2000 indicou que a CNEN não consegue cumprir o plano anual de inspeções das instalações radioativas. Os depósitos sob sua guarda estão praticamente cheios e sem acompanhamento de sua ocupação.

O relatório cruzou dados do Cadastro de Pagamento do Sistema Único de Saúde (SUS) -instituições que receberam pagamentos relativos à prática de medicina nuclear, com o cadastro da CNEN - instituições que praticam medicina nuclear, constatando uma diferença de 45% no rol da CNEN -órgão fiscalizador e licenciador destas atividades. Esta diferença cadastral significa que há material radioativo sem controle que pode ser usado de qualquer forma e ser descartado em qualquer lugar até acontecer um novo acidente, como o de Goiânia. A CNEN mantem um quadro de 20 inspetores para mais de 400 entidades a serem fiscalizadas.

A partir do exemplo de Goiânia, a CNEN recolheu fontes similares à do Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), que apresentavam o Cs137 aglutinado em uma matriz altamente solúvel, o que facilitou a contaminação. Hoje, são usadas fontes metálicas, mas um acidente como o de Goiânia não está afastado.

13 Anos Após o Acidente
Físicos da Universidade Federal Fluminense (UFF) constataram que os níveis de césio, em Goiânia, permanecem abaixo do limite máximo ao que um ser humano pode se expor à radiação. Eles localizaram, no entanto, duas goiabeiras contaminadas, com índices acima do considerado normal para plantas e pediram à Comissão Nacional de Energia Nuclear a retirada das árvores.

A cada quatro meses, eles coletam amostras de solo - entre 50 a 60 m de profundidade - em locais que não foram concretados à época da descontaminação e de plantas, tais como árvores e hortaliças, além de frutas e ovos.

Eles também medem a radiação no ar, a 1 m de altura do solo. O limite máximo é de 1 microsievert/hora e os níveis aéreos têm estado sempre abaixo desse teto. A análise do solo tem dado resultados satisfatórios, sempre abaixo do parâmetro máximo, que é de 22.500 Becquerel por quilo (Bq/kg).

As goiabeiras, no entanto, apresentaram radiação medida entre 800 Bq/kg e 900 Bq/kg. O nível máximo para plantas é de 600 Bq/kg. A descoberta de que a goiabeira ainda apresentava níveis de contaminação levou os pesquisadores da UFF a ampliar o enfoque do estudo. Foram avaliados também pés de manga, abacate, maracujá e mamão, mas em nenhum deles o nível de radiação estava acima do normal.

A partir daí, passaram a simular em laboratório contaminação em diversas espécies de plantas, para avaliar o comportamento da radioatividade nelas. Em laboratórios no Rio de Janeiro e em São Paulo, estão em análise pés de mamão, laranja, limão e romã. O objetivo do estudo é estabelecer um modelo de manejo em caso de acidente radioativo.

A pesquisa sobre o comportamento da radioatividade no nível ambiental, em solos e plantas, foi tema da tese de doutorado de Alessandro Facure, do Instituto de Física da UFF. Sua tese de mestrado, pela qual ele mediu a radiação no local do acidente, foi a primeira a ser produzida no Laboratório de Radioproteção Ambiental (LARA) do Instituto, inaugurado em 1998.

Veja algumas notas publicadas sobre este acidente radioativo.

Responsabilidade Criminal
 Em paralelo, a CNEN participava do jogo de empurra sobre responsabilidade com a Vigilância Sanitária de Goiás e os donos da clínica. Sendo indiciados no inquérito da Polícia Federal todos eles, num total de 7 pessoas.

Carlos Bezerril (IGR), Criseide Dourado (IGR), Orlando Teixeira (IGR), Flamarion Goulart (físico contratado para fiscalizar o aparelho), Amaurillo de Oliveira (ex-proprietário do IGR) foram indiciados por lesão corporal seguida de morte e responsabilizados também pelos danos às vítimas não fatais do acidente, como Roberto Santos Alves que teve amputação do braço direito. Júlio Rosenthal (CNEN) e Sebastião Carvalho (CVS/Sec. Saúde-GO) foram acusados de homicídio e lesões corporais culposos. O Ministério da Saúde conseguiu se safar por não ter constituído setor de fiscalização, portanto pessoa responsável, como determina o Código Nacional de Saúde. Mais tarde, a CNEN conseguiu, também, retirar do processo seu diretor.

Num despacho de 46 folhas, o juiz federal substituto Juliano Taveira Bernardes, da 8ª Vara em Goiás, analisou todos os fatos relacionados ao maior acidente radiológico do mundo.

Em 17 de março de 2000, a Justiça do Estado de Goiás condenou por danos ambientais a CNEN, o Instituto de Previdência dos Servidores do Estado de Goiás (IPASGO), o médico Amaurillo Monteiro de Oliveira e o físico hospitalar Flamarion Barbosa Goulart no valor de 1,3 milhão.

Embora os catadores de papel Wagner Mota Pereira e Roberto Santos Alves não tenham sido incluídos como réus na ação civil pública, Juliano Bernardes atribuiu aos dois a autoria imediata pelo acidente com o Cs137. O inquérito entendeu que não houve furto, pois o aparelho estava abandonado. Não indicou nenhuma irregularidade no comportamento dos biscateiros Roberto e Wagner, "nada censurável pelo direito."

Pelo menos, os valores não foram invertidos e as vítimas não se tornaram as culpadas.O juiz explicou que criminalmente eles não seriam inimputáveis, pois não sabiam da gravidade do ato que praticaram, ao retirar a bomba de césio do local onde estava. Os dois não tinham nenhum conhecimento sobre o perigo dos aparelhos radiológicos; além disso, não havia qualquer aviso de alerta no local, onde só existiam os escombros do antigo prédio do Instituto Goiano de Radiologia, em parte de área adquirida pelo IPASGO (onde foi construído depois o Centro de Cultura e Convenções de Goiânia).

Para o juiz federal, se os dois tivessem sido apontados como réus na ação civil, certamente seriam condenados, pois eles se encaixam na responsabilidade objetiva prevista na lei. Quanto aos médicos proprietários do Instituto, que foram excluídos da responsabilidade civil, embora condenados criminalmente, Juliano Bernardes explicou que a ação foi proposta contra eles, não contra o Instituto. A bomba de Cs137 havia sido adquirida, em 1972, pelo Instituto, pessoa jurídica, daí, a responsabilidade civil (multa pecuniária) incidir sobre a clínica e não sobre as pessoas físicas. Como o fato ocorreu antes da entrada em vigor da atual Constituição Federal, não houve como responsabilizar os médicos.

Já o IPASGO, Amaurillo de Oliveira e Flamarion Goulart foram condenados à prestação pecuniária, mas os R$ 100 mil fixados para cada um, acrescidos de correção monetária desde o ajuizamento da demanda (setembro de 1995) e juros moratórios a partir do rompimento da cápsula de Cs137 (13 de setembro de 1987), segundo a decisão. Para qualquer dos réus que descumprir a sentença, após o trigésimo dia da intimação, o juiz fixou multa diária de R$ 10 mil. No caso da CNEN, a multa é por cada item descumprido.

O valor será depositado no Fundo de Defesa dos Direitos Difusos. Foram retirados da ação a União e o Estado de Goiás. Os demais médicos também foram excluídos da relação de réus na ação proposta (setembro de 1995) pelo Ministério Público Federal em parceria com o MP Estadual.

Os médicos isentados do processo de ação civil foram condenados criminalmente por homicídio culposo em julho de 1992, condenados a três anos e dois meses de reclusão e suspensão do exercício da profissão e prisão.

Inicialmente, tinham que passar as noites e fins de semana na Casa do Albergado e mais tarde a pena progrediu para prestação de serviços médicos à comunidade. Em março de 1999 foram beneficiados por decreto presidencial de indulto de dezembro de 1998. Com isto, seus nomes foram removidos do rol de culpados.

Comissão Nacional de Energia Nuclear
O presidente da CNEN, "o homem dos segredos nucleares", contra-atacou com o que lhe pareceu a melhor arma: o programa nuclear paralelo. A CNEN que em 4 de setembro de 1987 foi saudada por ter obtido o domínio do ciclo nuclear com o enriquecimento de urânio por ultracentrifugação no Complexo de Aramar, em Iperó-SP, foi do céu ao inferno em menos de um mês.

Referindo-se ao emaranhado de parágrafos e textos legais, que deveriam definir os responsáveis, afirmou: "Esse acidente de Goiânia não vai mexer na nossa capacidade tecnológica. Mas, coloca em dúvida a responsabilidade das elites brasileiras e sua capacidade de cumprir o que está escrito nas leis."

-Para quem agiu no arrepio da lei, movimentando contas secretas e passando ao largo da legalidade, agindo de comum acordo com seus superiores, esta declaração não tem muito sentido, é inócua.

Coube a CNEN a sentença de 1 milhão de reais e a prestação de atendimento médico, hospitalar, odontológico, psicológico e técnico-científico até a terceira geração das vítimas, transporte de pacientes até o local dos exames e acompanhamento da população que vive em Abadia de Goiânia, onde se localiza o depósito de rejeitos.

O órgão federal também terá de efetivar um sistema periódico de notificação epidemiológica sobre câncer, e auxiliar e contribuir, no que for necessário, com o trabalho de monitoramento epidemiológico permanente da população de Goiânia, que era realizado pela Secretaria de Saúde do Estado de Goiás. No caso de interrupção desse monitoramento por parte do Estado, fica a CNEN condenada a efetivá-lo individualmente, e manter, em Goiânia, um centro de atendimento permanente de físicos e médicos especializados, caso a prestação desse serviços venha a ser interrompida por parte do IPASGO e do Estado de Goiás.

Uma auditoria do Tribunal de Contas da União realizada no segundo semestre de 2000 indicou que a CNEN não consegue cumprir o plano anual de inspeções das instalações radioativas, por limitações financeiras ou restrições orçamentárias. Os depósitos sob sua guarda estão praticamente cheios e sem acompanhamento de sua ocupação.

(...)

No tiroteio que a sociedade promoveu sobrou também para FURNAS e o Ministério de Minas e Energia, responsáveis pela usina nuclear e que na época estava parada (bobinas do gerador queimadas, numa paralisação de mais de 16 meses), o governador Moreira Franco ameaçava impedir a entrada da unidade em operação caso não fosse equacionado o problema de mau estado da BR-101, para a necessidade de haver um plano de evacuação, e da eficácia deste plano.

A ação indenizatória movida pelas vítimas ainda se encontra em tramitação. As vítimas criaram a Associação das Vítimas do Césio 137. Durante o Governo Collor conseguiram uma pensão paga pela União e outra do Governo estadual, o que somado não chega a dois salários-mínimos. O Governo Fernando Henrique emitiu a Lei 9.425. 617 pessoas são atendidas pela Suleide e mais de 100 pessoas tem direito à indenizações.

Tratamento Médico

Nesse primeiro momento o tratamento das vítimas em estado menos grave consistia, basicamente, em descontaminação externa com lavagem, usando água e sabão ou um detergente suave, para retirar da pele o pó e resíduo e melhorar as condições de eliminação das partículas gordurosas. A rotina consistiu em banhos e monitoração para verificar se os índices diminuíam. Em alguns foi usado vinagre, que é um ácido fraco, de ação abrasiva suave.

Potássio e césio hidratados permitiram a descontaminação interna, por coprecipitação, através da preparação de resinas catiônicas sintéticas carregadas com Azul da Prússia. Como elas não podem ser aplicadas a seco, foram preparados géis, cremes e pastas d'água, espalhando-as sobre a pele dos contaminados.

Essa solução química provocou resistência da parte médica, mas, foi preferível, à toxidade do césio, a de uma resina, que é mínima. Foram obtidos bons resultados na eliminação do césio.

O tratamento dos pacientes foi dividido em tratamento da síndrome aguda da radiação, através da depressão da medula óssea, da sua hipoplasia ou da sua aplasia; o destinado à recuperação das radiolesões; o tratamento da decorporação; e o de suporte e psicoterapia.

Com relação à fase aguda, foi feito: isolamento, repouso, vitaminoterapia, dieta livre de alimentos crus e hiperprotéica, esterilizada, inclusive a água e o leite (os pacientes estavam imunodeprimidos), reposição hidroeletrolítica, e a prevenção e tratamento de infecções oportunistas; ainda, transfusão de hemácias, de plaquetas previamente irradiadas e infusão de um fator de estimulação da medula óssea.

A síndrome aguda com depressão da medula óssea ocasionou 4 óbitos, por infecção e/ou hemorragia. A descontaminação dos pacientes foi feita com água e sabão. No início usou-se ainda ácido acético e dióxido de titânio. Mais tarde, água, sabão neutro, dióxido de titânio, seguido de lavagem com água morna, permanganato a 4% e hipoclorito de sódio a 0,5%. Também foram usadas pomadas à base de lanolina e óxido de titânio; elas funcionam como um creme que, ao ser removido, limpa a pele, descamando-a.

Na interna (decorporação) foi usado o radiogardase e o Azul da Prússia, que é uma mistura de ferro com ferrocianeto férrico, na proporção de 4 para 3. O produto age como uma resina de troca iônica, um carregador de íons. O césio, que é excretado pela via urinária passa então a ser eliminado também pelas fezes; este medicamento não tem efeitos colaterais, desde que totalmente puro.

Não se sabia a dose a ser usada e se seria eficaz, porque havia informação de que só atuaria nas primeiras 48 h; como não havia alternativa se optou por usá-lo mesmo 2 semanas após a contaminação; aumentou-se a dose diária e se acompanhou a eliminação do césio. Para os adultos foram usadas doses de 3 a 10 g; para as crianças, de 1 a 3 g. Os resultados foram satisfatórios. Também se usou: diuréticos (hidroclorotiazida, de 50 a 100 mg; e furosemida, para estimular a diurese; a hidratação oral forçada teve o mesmo objetivo).

Também foram utilizados sauna e exercícios ergométricos para ajudar na decorporação pela sudorese.

Na pele, inicialmente surgiram eritemas (semelhante a radiação solar) e prurido, queda de cabelos, formigamento e dormência; depois aparecem bolhas muito dolorosas. Nesta fase foram feitas aplicações tópicas de medicamentos e imersões em bacias com substâncias analgésicas e anti-sépticas. Na 3ª fase, quando as bolhas se romperam foram utilizadas soluções e pastas à base de tanino, óleo de babosa e substâncias anti-inflamatórias.

Também foram realizados debridamentos cirúrgicos e amputações, o uso de antibióticos e fungicidas, procedimentos anti-hemorrágicos, enxertos de medula óssea, reposição de fluidos. O grande problema das radiolesões é a sua característica cíclica e crônica; são lesões vasculares e de comprometimento profundo, o que permite a recidiva. Um número grande de pacientes teve radioepidermites que corresponderiam só à descamação da pele da mão ou de outra região do corpo.

Odontologia

Os primeiros atendimentos foram no HGG; depois se instalou um consultório emergencial na FEBEM. O objetivo era: aliviar a dor da odontalgia bucal, eliminar as infecções focais, aliviar as condições das próteses e restabelecer a estrutura funcional. As alterações mais comuns eram: candidíase, dos tipos pseudomembranosa e crônica ativa; e petéquias hemorrágicas em 70% dos casos.

Não se detectou aumento na incidência de cáries e doenças periodontais. Observou-se grande hipersensibilidade dentária, ao calor e frio.

Anatomopatológico das Vítimas Fatais

Havia queda de cabelos e mudança na textura da pele. Em uma vítima haviam múltiplas lesões hemorrágicas em toda a superfície corporal, do couro cabeludo aos pés; ao se rebater o couro cabeludo, isto era ainda mais nítido na musculatura. Haviam áreas que pareciam verdadeiros hematomas, áreas de coleções hemorrágicas.

Os órgãos internos tiveram modificada a sua tonalidade, com aspecto negróide, aumento de volume e de consistência. Também áreas de necrose em vários locais que tiveram contato direto com a substância.

Na região torácica o tecido pulmonar apresentava hemorragia difusa; também múltiplas sufusões hemorrágicas na superfície cardíaca e pericárdica. No pâncreas, também múltiplas áreas de hemorragia.

Houveram 2 casos em que não se constatou o aspecto hemorrágico difuso. Em um caso, o pulmão estava tão alterado que lembrava o fígado, endurecido por um processo inflamatório, não por ação direta do Cs137. Também o estômago apresentava múltiplas áreas hemorrágicas.

Quatro pacientes eram gestantes; os RN não apresentaram problemas e as gestações evoluíram sem intercorrências. Algumas lesões, devidas a radiação beta, foram superficiais. Outras, por raios gama, são evolutivas.

Há sempre a possibilidade de surgimento de efeitos biológicos tardios, principalmente a cancerização, com desenvolvimento de neurofibrossarcomas, uma forma rara de câncer. Indução de câncer pulmonar, de tireóide ou de fígado requerem uma ou 2 décadas, enquanto a leucemia pode manifestar-se em 5 a 10 anos.

Vítimas ainda têm sequelas da radiação

AGÊNCIA FOLHA/01.10.2001

"Se eu disser que estou bem, estarei mentindo, apenas vegeto. Nos últimos 14 anos só tive luta, muita dor e sofrimento." Assim Lourdes das Neves Ferreira, 49, resume o que ocorreu com sua vida após o acidente com a cápsula do Cs137 em Goiânia. Lourdes é mãe de Leide das Neves Ferreira, que morreu aos seis anos, contaminada após ingerir o pó radioativo. Após o acidente, o Estado criou a Suleide (Superintendência Leide das Neves), para cuidar das vítimas.

O pai de Leide, Ivo Alves Ferreira, 54, carrega as mãos defeituosas e uma série de complicações decorrentes da radiação. "Ele perdeu um dedo e tem lesões na mão e na coxa que estão abertas e inflamadas até hoje. Recentemente, Ivo passou sete dias na UTI e seu estado ainda é preocupante", afirmou Lourdes. Além do casal, o filho Lucimar, 28, também foi incluído no grupo 1 das vítimas, que tiveram contato direto com o césio. A filha mais velha, Lucélia, 30, não estava em casa no dia do acidente e foi incluída no grupo 3. O servidor Ernesto Fabiano, 60, carregou fragmentos da cápsula no bolso da calça e teve descalcificação óssea e contraiu uma grave lesão na perna.

Submetido a uma série de tratamentos e cirurgias de enxertos, Fabiano fraturou o osso da perna recentemente e afirma que ainda sente dores. "Tive que me aposentar por invalidez." O catador de papel Roberto Santos Alves, 28, que retirou a cápsula do Instituto Goiano de Radioterapia, teve o antebraço direito amputado e reclama justiça. "Os responsáveis não foram devidamente punidos", afirma. Outro que reclama por atendimento é o policial militar Gaspar Alves da Silva, 37, que fez plantões a menos de 30 metros da fonte radioativa antes que fosse levada para a vigilância sanitária. "Vi dois companheiros morrerem de câncer, tenho certeza de que foram contaminados."

Controle mudou após o acidente

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Apesar de a CNEN assegurar que diminuíram os riscos de um acidente com césio, para o vice-presidente do Coppe (Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Luís Pinguelli Rosa, "ainda há muita deficiência em proteção nuclear".

Pinguelli era presidente da Sociedade Brasileira de Física na época do acidente radioativo em Goiânia e acompanhou as primeiras ações para conter a contaminação. "Depois de constatado o problema, as medidas de contenção foram corretas, mas não estou tão tranquilo. Não há indícios de que o sistema de segurança e controle tenha sido tão melhorado."

Para o físico, um dos principais problemas para o monitoramento das fontes -usadas em hospitais, indústrias e pesquisas- é o número reduzido de profissionais qualificados. No país, há 55 fiscais para controlar 9.406 fontes em 1.641 instituições. O césio solúvel foi substituído por matrizes sólidas, metálicas, que impedem a propagação de radiação.

O acidente em Goiânia também obrigou a CNEN a reformular todo o sistema de controle e fiscalização de materiais radioatômicos usados no país. Até 87, a comissão limitava-se a cadastrar as fontes e recolhê-las quando solicitada.

Agora, toda vez que uma fonte é comprada, a licença é dada pela CNEN. Se o projeto de uso for aprovado, ainda acontece uma visita de acompanhamento. Depois de instalada, a fonte é monitorada pela Secretaria da Saúde ou Vigilância Sanitária.

Grupo teve tratamento em Cuba

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O acidente com o césio marcou também um pacto de cooperação inédito entre Brasil e Cuba, assinado em 1992. O acordo permitiu que 53 vítimas (grau 1) tivessem atendimento médico especializado naquele país. Poucos meses antes, 10 mil crianças soviéticas contaminadas após a explosão da usina nuclear de Chernobyl, em abril de 1986, haviam sido atendidas pela mesma equipe médica, chefiada por Norge Romero Cordies.

"Além de passar por todos os exames necessários, as vítimas tiveram atendimento psicológico", disse o presidente da Faperj (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro), Fernando Peregrino, que acompanhou as vítimas.

"Uma cápsula radioativa pode irradiar o núcleo e provocar efeitos nos filhos e netos, além de alterações genéticas. Essa insegurança é a maior vilã desse tipo de acidente porque age sobre a incerteza. Esse trabalho fez com que essas pessoas voltassem a ter segurança."

O intercâmbio científico também permitiu a instalação do laboratório de ciência radiológica, que desenvolve estudos sobre medicina radiológica e é responsável pela medição e calibração dos níveis de radioatividade dos hospitais do Rio de Janeiro.