Manguezal

O manguezal é um ecossistema costeiro, de transição entre os ambientes terrestre e aquático, característico de regiões tropicais e subtropicais, sujeito ao regime de marés. É constituído por espécies vegetais lenhosas típicas, adaptadas às condições específicas deste ambiente. No que diz respeito à energia e à matéria, são sistemas abertos, recebendo, em geral, um importante fluxo de água doce, sedimentos e nutrientes do ambiente terrestre e exportando água e matéria orgânica para o mar ou águas estuarinas.
O desenvolvimento dos manguezais depende de cinco requisitos básicos: altas temperaturas (média mensal mínima maior que 20°C e uma amplitude anual inferior à 5°C); costas livres de ação de ondas e marés violentas (baías rasas e abrigadas, estuários abrigados, lagoas, o lado de ilhas abrigado do vento, canais protegidos); aluvião fino particulado (substrato mole constituído por silte e argila fina, rica em matéria orgânica); presença de água salgada e uma larga amplitude de marés.
Dada às condições hostis do ambiente físico para a maioria das plantas as espécies vegetais de mangue possuem adaptações especiais para a sobrevivência. Para a fixação em substrato inconsolidado (frouxo) o mangue vermelho (Rhizophora) apresenta raízes-escora que são raízes aéreas que partem do caule principal arqueadas até o solo. As raízes das espécies de mangue possuem lenticelas localizadas nas raízes escora e em raízes aéreas denominadas pneumatóforos que ocorrem nos mangues branco (Laguncularia) e negro (Avicennia). Estas estruturas têm a função de realizar as trocas gasosas, uma vez que o sedimento do manguezal é anóxico. Para superar os problemas da salinidade as plantas de mangue desenvolveram mecanismos que impedem com que o sal entre na planta através das raízes (Rhizophora e Laguncularia) ou excluem o sal através de glândulas localizadas nas folhas (Avicennia). Outra adaptação à salinidade é a viviparidade, que protege os embriões. Em água salgada a longevidade dos propágulos (sementes) de Rhizophora é de mais de um ano, enquanto que de Avicennia é de 110 dias e de Laguncularia de 35 dias. Estes propágulos têm poder de flutuação e podem chegar a regiões muito distantes de onde foram produzidos.
Os animais encontram no manguezal diferentes tipos de habitats disponíveis, tais como a copa das árvores, concavidades com água em árvores, poças d'água, superfície do solo, o próprio substrato e os canais de água desse sistema.
A fauna encontrada em manguezais é composta por espécies residentes, organismos marinhos jovens (criadouro) e visitantes marinhos e dulciaqüícolas. A proporção desses componentes numa área estuarina varia durante o ano segundo a salinidade. Por exemplo, quanto maior a pluviosidade, maior o componente dulciaqüícola, sendo que o componente estuarino permanece o ano todo. Crustáceos, moluscos e peixes passam pelo menos uma parte do ciclo de vida no manguezal. Peixes e aves, crustáceos, moluscos e outros invertebrados encontram nos manguezais alimento, refúgio contra predadores e área para reprodução e crescimento, sendo que esse ecossistema consiste num "habitat crítico" para muitas espécies. Estas possuem uma relação de dependência desse ambiente nos estágios iniciais do ciclo de vida.
Há um nível trófico misto composto por herbívoros, omnívoros e carnívoros, representados por protozoários, pequenos nemátodos, rotíferos e crustáceos que pastejam as superfícies das folhas em decomposição ou ingerem partículas de detrito. Os anfípodos e outros detritívoros como misidáceos, ostrácodos, copépodos, camarões, caranguejos e bivalves filtradores são o elo que permite a transferência de energia da partícula de detrito aos carnívoros intermediários e superiores.
Um dos importantes grupos faunísticos de manguezal é representado pelos moluscos, sendo que algumas espécies são exploradas tradicionalmente pelas comunidades locais. Eles se encontram ligados principalmente a raízes, troncos e pedras, mas ocupam também o substrato e a água. Exemplos: mariscos e ostras.
Os crustáceos são o grupo animal característico do manguezal (principalmente os Decapoda). Esse grupo é muito importante na dinâmica do ecossistema devido à sua participação na cadeia trófica, como recurso alimentar para muitos peixes e aves, ao revolvimento do lodo, trazendo matéria orgânica para a superfície, e à fragmentação das folhas da serrapilheira. São encontrados, principalmente, no substrato e sobre troncos, raízes e pedras, além de viver em poças de água doce e salobra. Exemplos: camarões de água doce, salobra e marinha; siris, caranguejos e ucas.
A alta fertilidade estuarina promove uma alta produtividade fitoplanctônica formando a base alimentar da cadeia trófica, o que faz com que os estuários tenham as águas mais férteis e piscosas do globo. Os peixes dos estuários pertencem a vários níveis tróficos; alguns alimentam-se de material detrítico, diretamente do fundo, mas a maioria se constitui de carnívoros intermediários e superiores (alimentação indireta de detritos). Pode-se classificar as espécies de peixes do manguezal em três grupos: tipicamente marinhas (a maioria), tipicamente dulciaqüícolas e tipicamente mixo-halinas (estuarinas). Exemplos de espécies estuarinas: cascudo, guarajuba, maria-luiza, linguado.
A maioria das espécies de aves vistas em manguezais são visitantes urbanas e litorâneas, havendo ainda as migrantes periódicas e as típicas permanentes, que utilizam esse ecossistema para nidificação, alimentação e proteção. Exemplos de aves típicas permanentes: garça-azul, socó-dorminhoco, gavião-do-mangue, saracura-do-mangue, sebinho-do-mangue.
Os manguezais cobrem uma área de 240.000 km2 das formações costeiras tropicais e subtropicais de continentes e ilhas. As regiões do globo onde os bosques de mangue atingem seu desenvolvimento máximo são aquelas do Indo-Pacífico, seguidas por algumas áreas da África e da América do Sul. No Brasil, ocorrem desde o Amapá (Cabo Orange, 4°30'N) até Santa Catarina (Laguna, 28°30'S), ocupando uma área de cerca de 14.000 km2. Quando se consideram as formações associadas (marismas), essa estimativa passa a 25.000 km2. Ao longo da costa brasileira, é encontrada uma grande diversidade de condições ambientais, devido a diferenças de latitude e de fisiografia. Assim, as áreas com maior desenvolvimento se encontram entre 04°30' e 01°40' de latitude norte. Outras áreas importantes se encontram entre Cabo Frio (23°00'S) e Laguna (28°30'S), com os principais bosques na Baía de Guanabara, Baixada Santista, Complexo Estuarino Lagunar de Iguape-Cananéia (incluindo Paranaguá), Joinville, Florianópolis e Laguna.
Os manguezais possuem importantes funções ecológicas que os tornam imprescindíveis para a região costeira tropical: amenização do impacto do mar na terra; controle de erosão pelas raízes de mangue: estabilização física da linha de costa; retenção de sedimentos terresrtres de escoamento superficial; “filtro biológico” de sedimentos, nutrientes e até mesmo poluentes, o que impede o assoreamento e a contaminação das águas costeiras; abrigo de fauna, sendo considerado um “habitat crítico”, na forma de berçário para moluscos, crustáceos e peixes. Outra função que vem sendo questionada é a exportação de matéria orgânica para o estuário e áreas costeiras adjacentes. Acredita-se que a exportação desta depende de uma série de fatores como, por exemplo, a hidrodinâmica do local.

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