O peixe-boi

O peixe-boi pertence à Ordem Sirênia e é o único mamífero aquático herbívoro. Ele vive na água, mas precisa vir à superfície em intervalos de 2 a 5 minutos para respirar. A espécie marinha (Trichechus manatus) pode medir 4 metros e pesar até 800 quilos! O peixe-boi amazônico (Trichechus inunguis) é menor: atinge 2,5 metros e pesa até 300 quilos. Além disso, ele é mais escuro e tem o couro liso. Uma outra diferença em relação a seu parente marinho é que o exemplar da Amazônia não tem unhas nas nadadeiras peitorais. É também o único dos sirênios exclusivo de água doce. O peixe-boi da Amazônia é uma espécie endêmica, ocorrendo apenas nos sistemas do rio Amazonas, no Brasil e do rio Orinoco, no Peru.


O peixe-boi é um animal de vida longa. Estudos revelam que o peixe-boi vive até 50 anos, podendo, em alguns casos, chegar a 60 anos. Ao longo do tempo, o homem tem sido, em grande parte, o responsável pelo encurtamento da vida desse animal. A caça indiscriminada fez do peixe-boi o mamífero aquático mais ameaçado de extinção no Brasil. Além da caça deliberada, outros fatores de extinção são a morte acidental em redes de pesca, o encalhe de filhotes órfãos e a degradação ambiental.


De acordo com a IUCN, International Union for the Conservation of the Nature, todas as espécies de sirênios ainda existentes correm riscos de extinção.


No Brasil, o peixe-boi é protegido por lei desde 1967 - Lei de Proteção à Fauna, No. 5197. A caça e a comercialização de produtos derivados do peixe-boi é crime pode levar o infrator a até 2 anos de prisão.

Anatomia

O peixe-boi marinho tem a pele rugosa, com a cor variando entre cinza e marrom-acinzentado. A cabeça fica bem junto ao corpo. Pode-se quase afirmar que ele não tem pescoço, apesar de conseguir movimentar a cabeça em todas as direções.
Ele tem olhos bem pequenos, mas enxerga bem, sendo capaz até mesmo de reconhecer cores.O nariz está bem em cima do focinho, com duas grandes aberturas. Mas o peixe-boi não tem orelhas. Os ouvidos são apenas dois pequenos orifícios um pouco atrás dos olhos. Mesmo assim, pode ouvir muito bem. Além de escutar os ruídos ao seu redor, ele também pode se comunicar através de pequenos gritos chamados vocalizações. Esta comunicação é muito importante entre a mãe e o filhote. A mãe é capaz de reconhecer o seu filhote entre muitos outros apenas pela vocalização.
Sua boca é grande: os lábios de cima são amplos e se movimentam na hora de pegar o alimento.
No focinho, o peixe-boi tem muitos pêlos, chamados vibrissas ou pêlos táteis. Eles são muito sensíveis ao movimento ou ao toque, tal como acontece com os bigodes dos gatos. Mas ele também possui pêlos ao longo de todo o corpo.
Por ser um animal aquático, no lugar das patas dianteiras o peixe-boi tem duas nadadeiras. São as nadadeiras peitorais, com unhas arredondadas nas pontas. Em vez das patas traseiras, possui uma grande nadadeira no final do corpo. É a nadadeira caudal.
Para nadar, o peixe-boi impulsiona sua nadadeira caudal, usando as duas nadadeiras peitorais para controlar os movimentos. Apesar de bastante pesado, consegue ser bem ágil dentro d'água, fazendo muitas manobras e ficando em várias posições. Normalmente, ele nada a uma velocidade reduzida, entre 4 e 10 km/h, podendo, no entanto, alcançar, num mergulho curto, até 25 km/h.
Por ser um mamífero, o peixe-boi precisa ir à superfície para respirar. Como os outros mamíferos, ele respira pelos pulmões, que só funcionam com ar, não com água, como as brânquias dos peixes. Nos seus mergulhos normais fica apenas de 1 a 5 minutos debaixo d'água. Já em repouso, pode permanecer até 25 minutos submerso sem respirar.

Evolução e Classificação

O peixe-boi pertence a Ordem Sirênia, os Sirênios são os únicos mamíferos aquáticos herbívoros, habitam ambientes rasos dos rios, estuários e do mar. Estão em número reduzidos pelo mundo.
A Ordem Sirenia é composta por duas famílias: A Dugongidae(dugongo e vaca marinha) e a Trichechidae (peixes-bois). A Dugongidae possui duas espécies, Dugong dugon (dugongo) e Hidrodamalis gigas (vaca marinha de Steller, extinta em 1768), e a Trichechidae por três espécies: Trichechus senegalensis (peixe-boi africano) Trichechus manatus (peixe-boi marinho), Trichechus inunguis (peixe-boi amazônico), sendo as duas últimas espécies encontradas no Brasil.
A espécie Trichechus manatus esta dividida em duas subespécies Trichechus manatus latirostris que é encontrado na América do Norte e Trichechus manatus manatus que habita as águas da América Central e do Sul.
Acredita-se que os Sirênios originaram-se no Velho Mundo (Eurásia e/ou África), apesar da existência de fósseis mais antigos encontrados na Jamaica, tendo sido registrado sua primeira aparição no meio da época do Eoceno, 55 milhões de anos.
Os Sirênios possuíram um ancestral comum com o elefantes e o hyrax (pequeno mamífero semelhante ao coelho) a cerca de 75 milhões de anos, recentemente confirmado por pesquisadores.
Evoluíram de ancestrais quadrúpedes de vida anfíbia, na sua evolução adquiriram perfil pisciforme, órgãos externos de equilíbrio e propulsão hidrodinâmicos. Entre os mamíferos placentários atuais, os Sirênios foram talvez os primeiros a se adaptarem inteiramente ao meio aquático, sendo hoje em dia os únicos herbívoros aquáticos entre os mamíferos.

Bio-ecologia

A distribuição do peixe-boi na natureza, seu modo de alimentação, e o que comem, a época do ano e como ocorre a sua reprodução, e o seu comportamento uns com os outros e com outros animais são a ecologia desta espécie.

Distribuição

No Brasil, existem duas espécies de peixes-bois: o peixe-boi marinho (Trichechus manatus) e o peixe-boi da Amazônia (Trichechus inunguis).
O peixe-boi marinho pode ser encontrado no Nordeste e Norte do país.
Já o peixe-boi amazônico só existe na bacia do rio Amazonas, no Brasil, e no rio Orinoco, no Peru.
No passado, podiam ser encontrados em toda a costa, do Espírito Santo ao Amapá. Por causa da caça indiscriminada desde a época da colonização do Brasil e o avanço da ocupação do litoral, este animal se encontra seriamente ameaçado de extinção. Hoje, eles aparecem apenas no Amapá, Pará, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas, tendo desaparecido no Espírito Santo, Bahia e Sergipe.
No Nordeste, a presença é descontínua. O peixe-boi não é encontrado no litoral sul de Pernambuco, norte de Alagoas e em parte do litoral do Ceará.

Podem ser definidas três áreas de ocorrência na costa atlântica brasileira:
do Oiapoque à praia de Cacimbinhas, em Guriú, no Ceará.
de Barro Preto, Iguape, no Ceará, a Olinda, em Pernambuco.
da Barra de Santo Antônio, em Pernambuco, ao Pontal do Peba, em Alagoas.
A facilidade de captura levou o peixe-boi a ser caçado de forma indiscriminada. Hoje, ele é o mamífero aquático mais ameaçado de extinção no Brasil, de acordo com o Plano de Ação para os Mamíferos Aquáticos elaborado pelo IBAMA em 1997. No Brasil, é protegido por lei desde 1967 (lei de Proteção à Fauna n.º 5197/67). A caça é considerada um crime inafiançável sujeito à pena de dois anos de prisão.

O peixe-boi marinho é a espécie mais conhecida entre os sirênios, sobretudo a subespécie da Flórida, nos Estados Unidos. As duas subespécies, a americana, Trichechus manatus latirostris, e a brasileira, Trichechus manatus manatus, enfrentam problemas quanto à conservação em virtude da degradação do habitat, poluição dos sistemas fluviais e marinhos, trânsito intenso de embarcações motorizadas (na Flórida, são freqüentes os animais feridos pelas hélices das lanchas), caça indiscriminada e pesca de subsistência e acidental.
Há vários locais, como o México, a Venezuela e Belize, onde o peixe-boi marinho parece ser abundante ou onde ainda há grande quantidade de habitat disponível. Mas é preciso que se estabeleçam regras urgentes de proteção. Os estudos históricos mostram que o número de peixes-bois tem declinado acentuadamente em muitos países da América do Sul e Central, particularmente em Honduras, Costa Rica, Panamá e Brasil.

Alimentação

O peixe-boi se alimenta apenas de vegetais. Um exemplar marinho de 300 quilos pode comer até 30 quilos de capim por dia.
Por que será que o peixe-boi tem esse nome? "Peixe" porque vive na água. "Boi" por ser um mamífero que se alimenta apenas de vegetais. Como os bois, é um herbívoro.
O peixe-boi marinho pode passar até 8 horas do dia comendo. Alimenta-se principalmente de um tipo de capim, o capim-agulha, que cresce em grande quantidade perto da praia.
Além do capim, pode comer aguapés, algas e folhas dos mangues. O peixe-boi prefere a vegetação mais macia, pois precisa mastigar bem a comida e tem apenas os dentes da parte de trás da boca, os molares.
Ele come tanto as folhas quanto as raízes. Para isso, desenterra a planta com as nadadeiras e a leva à boca.Os lábios superiores, que têm pêlos muito duros, ajudam a segurar as folhas e raízes. Os lábios também dobram as plantas, levando-as para dentro da boca.
Um peixe-boi marinho pode comer o equivalente a 10% do seu peso por dia. Um animal de 300 quilos, portanto, chega a ingerir até 30 quilos de vegetais. Alimentando-se assim, ele controla o crescimento das plantas aquáticas e, com suas fezes, fertiliza as águas que freqüenta, contribuindo para a produtividade do ambiente. As fezes servem de nutrientes para pequeninas algas (chamadas fitoplâncton) que existem na água. Estas algas são o alimento de animais muito pequenos (os zooplâncton) que, no final, são o alimento dos peixes, completando assim uma cadeia alimentar.
Em cativeiro, como na Sede Nacional do Projeto Peixe-Boi, em Itamaracá, Pernambuco, os peixes-bois comem o capim-agulha e algas, coletados diariamente no mar. Os filhotes órfãos que são encontrados nas praias do Nordeste ainda precisam mamar quando chegam ao Projeto, pois se separaram da mãe muito cedo. Por isso, eles são alimentados com mamadeiras preparadas com leite especial sem lactose (os peixes-bois têm alergia a lactose), enriquecido com sais minerais e vitaminas.

Reprodução

É preciso olhar com muita atenção para perceber as diferenças entre macho e fêmea no peixe-boi. A reprodução da espécie é lenta e a mãe cuida do filhote durante os dois primeiros anos de vida.
Os peixes-bois não têm nenhuma diferença sexual externa fácil de ser notada. Por isso, devemos observar o ventre do animal e procurar em que posição estão o umbigo, a abertura genital e o ânus.
Na fêmea, a abertura genital (a vagina) fica mais próxima do ânus, enquanto no macho (no caso, o pênis) fica mais próxima do umbigo. O pênis só sai da abertura genital no momento do acasalamento. No resto do tempo, está sempre "guardado".
O acasalamento se dá com o macho por baixo e a fêmea por cima, num tipo de "abraço". É aí que o macho externa seu pênis e faz a penetração na fêmea.
Vários machos podem copular com uma mesma fêmea, o cio dura um longo período, mas apenas um deles irá fecundá-la.
A reprodução da espécie é lenta, pois o período de gestação das fêmeas é longo: 13 meses. Depois, a mãe amamenta o filhote durante dois anos. Por causa disso, a fêmea tem apenas um filhote a cada quatro anos, pois ela só volta a entrar no cio outra vez um ano depois de desmamar.
O mais comum é que a fêmea do peixe-boi tenha apenas um filhote, mas há casos de nascimentos de gêmeos, até mesmo em cativeiro, como já aconteceu na Sede Nacional do Projeto Peixe-Boi, em Itamaracá, Pernambuco.
Nos primeiros dias de vida, o filhote alimenta-se exclusivamente do leite da mãe. O leite materno é importante para o desenvolvimento do filhote: é um alimento completo que o ajuda no crescimento e funciona como uma vacina, protegendo-o nos primeiros tempos de vida. Durante o período de amamentação é possível notar as mamas na fêmea. Elas ficam uma de cada lado, bem abaixo da nadadeira peitoral.
Mas é já a partir dos primeiros meses de vida que o peixe-boi começa a ingerir vegetais, seguindo o comportamento da mãe. O filhote, aliás, recebe todos os cuidados da mãe. Muito zelosa, é ela quem o ensina a nadar, a subir até a superfície para respirar e também a alimentar-se de plantas.

Comportamento

Estudos feitos até agora não comprovaram nenhum tipo de organização social entre os peixes-bois. Eles não tentam dominar uns aos outros, não possuem um senso de posse de território, dificilmente se comportam de forma agressiva entre si e vivem quase sempre solitários.
O único relacionamento que se mantém firme por algum tempo na espécie é o que existe entre mãe e filhote (que dura dois anos).
Até no período do cio da fêmea a formação de grupos de vários machos em torno dela é temporária.
Apesar de parecerem tão sós, os peixes-bois podem se alimentar juntos num mesmo local.
Em cativeiro, os peixes-bois também podem brincar entre si, principalmente usando a boca e o focinho, dando "beijos" ou apenas roçando um no outro, rolando o corpo ou dando abraços com as nadadeiras peitorais.


Fonte: www.projetopeixe-boi.com.br
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