Protocordados

O presente texto é a anotação de uma aula ministrada pelo Dr.  Eugen Kolisko,  médico vienense,  intimamente ligado ao movimento antroposófico.
Tivemos a ocasião de estudar os animais de sangue quente,  pássaros e mamíferos.  Depois,  dirigimos a nossa atenção aos animais inferiores,  observando desde os tipos mais simples até os mais complicados,  ou seja,  desde a parte mais elevada até a parte mais simples da evolução.  Estudamos três grupos de invertebrados:
 
 

 
Protozoários (seres com uma célula)
Celenterados (animais com uma cavidade)
Echinodermados  (animais de pele com espinhos)

Resumidamente,  os Protozoários apresentam as seguintes características:  são unicelulares,  estão espalhados por toda Terra mas vivem como seres isolados.  Eles são partículas vivas,  formando um aglomerado,  caso apareçam em grande número de espécies.  Os Protozoários também podem ser encontrados dentro do corpo dos seres vivos mais superiores a eles,  como plantas e animais.  Os Protozoários não mantêm um limite rígido entre as características animais e vegetais.  É importante lembrar que todo ser vivo passa,  através de um estágio unicelular,  por um tipo de estágio Protozoário no início de seu desenvolvimento.
O segundo grupo,  os Celenterados,  é formado por animais Metazoários,  com mais de uma célula.  Eles se estruturam formando uma cavidade,  um saco oco,  ou uma formação semelhante a uma tigela.  Eles possuem inicialmente um estômago que é o órgão de digestão.  Durante os degraus iniciais do desenvolvimento,  os Celenterados revelam uma dualidade.  Eles estruturam duas camadas distintas,  uma externa e outra interna.  A camada externa que reveste o animal é denominada ectoderme.  A interna é a endoderme e se especializa nos processos digestivos.  Os Celenterados apresentam um outro tipo de dualidade:  eles aparecem em duas formas diferentes,  como PÓLIPOS e como MEDUSAS.  A polaridade das camadas internas e externas é a característica que decide se o animal é do tipo pólipo (como por exemplo as Anêmonas) ou do tipo medusa,  (como por exemplo as águas-vivas).  Os Celenterados são algumas vezes chamados de animais-planta ou flores animais.
Como terceiro grupo temos os Echinodermados,  animais marinhos com a pele cheia de espinhos.  Eles apresentam um trimembramento.  Eles não possuem apenas uma camada externa e outra interna,  que é a digestiva,  mas também uma terceira camada situada entre essas duas e que dá origem aos sistemas respiratório e circulatório.  Apresentam,  frequentemente,  uma estrutura geométrica.  Os Echinodermados,  como a estrela do mar,  são mais móveis,  muito mais semelhantes a animais do que os Celenterados e mais independentes do que os Protozoários e Celenterados.
Iremos agora abordar um outro grupo animal que é muito pouco conhecido.  Muito pouca gente conhece esses animais que serão objeto do nosso estudo.  Apenas nos tratados de Zoologia existe a menção dos diversos animais deste grupo.  Eles são realmente muito interessantes.  Esse grupo de animais mostra fatos muitíssimo interessantes,  que são muito importantes para a compreensão do desenvolvimento de todo reino animal.
Esses animais são os Tunicados.  Invertebrados exclusivamente marinhos que não atingiram o estágio de desenvolvimento dos outros animais terrestres.  Eles não possuem estrutura óssea ou esqueleto.
Em primeiro lugar,  irei descrever alguns animais desse grupo.  Isso é necessário pelo fato deles serem muito pouco conhecidos.  Existem basicamente dois diferentes tipos:  os móveis e os imóveis.  As Ascídias,  que esguicham água,  possuem vida sedentária,  vivendo no fundo do mar,  e as Salpas,  que são móveis e de vida livre.
As ascídias possuem aspecto semelhante às esponjas de banho comuns.  Elas não exibem movimento vivendo permanentemente atadas às rochas ou algas marinhas.

 

Pêra do mar
Pêra do Mar  -  Um típico Tunicado.

Essa Ascidia vive aderida às rochas nas costas do Oceano Atlântico,

na região setentrional da América do Norte.

O tipo mais simples de Ascídia parece um saco aberto para cima,  com duas aberturas,  a boca e o átrio.  O animal é totalmente envolvido por um manto,  a túnica.  Essa túnica forma uma parte externa muito fina que envolve o animal e é composta por celulose.  Essa substância não é encontrada normalmente nos animais,  mas dá dureza e sustentação a várias estruturas vegetais.  Animais estáticos ou que perderam o movimento livre,  são normalmente tipos degenerados.  O Tunicado adulto é degenerado pelo fato de sua larva nadar livremente.
As Ascídias são seres que se alimentam filtrando a água,  obtendo como fonte de nutrição aquilo que,  fluindo juntamente com a água do mar,  penetra no animal.  Algumas Ascídias vivem com indivíduos isolados,  outras em grupos que se unem formando colônias da mesma maneira que os Pólipos.

Dendrosa glossularia
Dendrosa glossularia
Pequenas Ascídias vermelhas que crescem em grupos, aderidas às rochas,

um pouco abaixo do nível da maré baixa, nas costas das Ilhas Britânicas.

Existem algumas Ascídias comestíveis.  O interior desses animais é em grande parte preenchido por uma grande faringe perfurada por muitas fendas denominadas fendas faríngeas.
Essas fendas são rodeadas por cílios que fazem a água fluir da boca para o interior do animal passando pelas fendas faríngeas e indo até o átrio onde será eliminada.  Se o animal for perturbado,  a cavidade se contrai e a água será esguichada em dois fluxos,  daí o nome Esguicho Marinho.  A faringe desse animal é um órgão que não serve apenas para respirar,  mas que funciona ao mesmo tempo como uma boca e um estômago.  Existe um verdadeiro estômago e um tipo de intestino e no final do mesmo,  há uma abertura que é o ânus.
Esse animal possui um sistema circulatório formado por um coração tubular circundado por vasos sanguíneos.  O coração tem uma capacidade interessantíssima,  que é a de contrair para um lado,  dando 50 a 60 batidas,  conduzindo o sangue em uma direção.  Depois ele contrai o outro lado,  levando o sangue na outra direção e assim sucessivamente.  É como se as artérias e veias trocassem de função.  A circulação sanguínea não flui continuamente em uma só direção,  mas ocorre uma alternância do fluxo que vai ora para um lado,  ora para outro lado.  Ocorre portanto uma  reversão do fluxo sanguíneo.

Ascídia - Corte longitudinal

A Ascídia é hermafrodita,  ela se auto-fecunda e lança os ovos para fora.  Em alguns casos eles se desenvolvem dentro do animal ou são inférteis.
A anatomia da Ascídia é complicada.  Ela possui um sistema respiratório-digestivo,  um sistema circulatório com vasos e coração e também apresenta um gânglio nervoso que envia um filete nervoso que percorre todo o animal.
As Salpas têm relação com as Ascídias.  Elas são mais delicadas e bonitas do que essas últimas.  As Salpas estão presentes em grande número nas superfícies e no fundo dos oceanos e algumas vezes ocorrem em um número tão grande que formam uma enorme massa animal.
As Salpas foram descobertas por uma pessoa marcante,  o poeta Albert Chamisso.  Em sua viagem ao redor do mundo,  ele fez uma descrição desse animal,  dando muitos detalhes científicos.  Foi Albert Chamisso quem pela primeira vez descobriu o interessantíssimo fato dessas criaturas realizarem uma alternância de gerações.  As Salpas realizam dois processos de propagação,  um sexual e outro assexual.  Chamisso mencionou que as Salpas são semelhantes às suas avós.  Somente gerações alternadas mantêm essa forma.  As Salpas são translúcidas,  apesar delas serem cobertas com túnicas rígidas.  Podemos comparar as sedentárias Ascídias e as Salpas que possuem vida livre com os Pólipos que são sedentários e as Medusas que vivem livremente.  Mas a diferença é muito mais intensa nos Tunicados do que nos Celenterados.
As Salpas se reproduzem sexualmente,  mas também ocorre uma propagação através da produção de brotamento vegetativo.  Esses brotos,  semelhantes a uma Ameba,  são produzidos assexuadamente pelo animal,  podendo formar uma enorme colônia onde novos brotos se desenvolvem em cima dos mais velhos,  formando uma massa sobre as superfícies das rochas ou apoiadas na Algas.  Esse tipo de brotamento pode produzir uma enorme família.

A alternância de gerações realizada através da reprodução sexuada e assexuada não é o processo mais importante realizado pelas Salpas.  O fato mais marcante e mais interessante está relacionado com o desenvolvimento desses animais.  As estruturas da Ascídia e da Salpa no estado adulto não são tão interessantes quanto a de suas larvas!  Todo ser vivo inicia sua vida como uma simples célula,  começando sua evolução e assumindo o degrau evolutivo dos Protozoários.  Tanto as Ascídias quanto as Salpas passam através do estágio de Gastrulação e realizam um processo de desenvolvimento embrionário anatomicamente muito complexo.
As Ascídias e as Salpas adultas se degeneram durante um longo tempo.  A Ascídia é uma larva que nada livremente.  Sua forma é semelhante à do girino da rã e consiste de uma longa cauda com músculos,  uma corda dorsal ou NOTOCORDA bem desenvolvida e uma CORDA NERVOSA DORSAL TUBULAR.  Em seu tronco,  situa-se a faringe branquial com fendas.  Com o passar do tempo essa larva se fixa em uma rocha e perde a sua notocorda,  bem como seu cordão nervoso.  Se compararmos a Ascídia adulta com a sua larva,  iremos notar que o adulto é uma forma degenerada quando comparada com o embrião (larva).  O adulto não tem vestígios da notocorda e seu sistema nervoso é representado apenas por um gânglio nervoso situado na região dorsal do corpo entre as duas aberturas.
As Salpas também passam pelo estágio de larva com cauda.  A larva possui um estômago e uma longa cauda.  Dentro dessa formação surge um tipo de esqueleto e um tipo de medula espinal,  a Corda Dorsalis.  Em cima há um órgão que é sensível à luz,  um tipo de olho.

Salpa

A corda dorsal é uma estrutura que está sempre presente durante o desenvolvimento embrional dos animais superiores,  os Vertebrados.  No centro dos vertebrados existe sempre uma parte mais mole que percorre todo o corpo do animal.  No embrião essa parte mais mole é o cordão espinal que surge antes do osso ter sido formado.  As substâncias ósseas se acumulam em torno do cordão espinal durante o desenvolvimento embrionário.  Essa corda dorsal é encontrada nas larvas de Ascídias e Salpas que nadam livremente no mar.  Durante essa fase embrionária,  as Ascídias e Salpas passam por um estágio apenas encontrado no desenvolvimento embrionário dos vertebrados.

Larva de Ascídia

Durante o desenvolvimento larvário,  as Salpas e as Ascídias apresentam cauda.  Depois disso elas eliminam essa estrutura juntamente com a corda dorsal,  com os músculos que se formaram e se colocaram de maneira segmentar,  com o olho e o gânglio e toda a parte dorsal.  O animal retém apenas a parte ventral do embrião onde está o estômago e apenas essa fração do embrião é que irá formar a Salpa ou a Ascídia no estágio adulto.  O animal adulto possui uma anatomia muito mais perfeita no estágio embrionário do que na idade adulta.  As Salpas e as Ascídias no estágio adulto nos revelam um processo de degeneração.
O Amphioxus é um animal que não difere muito do estágio embrionário percorrido por todos os Vertebrados durante o desenvolvimento embrionário.  O Amphioxus está intimamente relacionado com as fases iniciais de desenvolvimento das Salpas.  Foi descoberto que algumas espécies de Salpas mantêm o estágio evolutivo embrionário durante toda a sua vida e por essa razão mantém uma estreita relação com o Amphioxus.
O Amphioxus foi descoberto antes das Salpas.  Ele é transparente,  mais ou menos sem cor,  levemente amarelado e se parece com uma pequena lesma.  Pallas em 1774 foi quem descobriu esse animal pensando que se tratava de um tipo de lesma.  Posteriormente notaram que ele possuía uma corda dorsal e que portanto não era uma lesma.  Investigações microscópicas mostraram que o Amphioxus tinha características de um peixe sem cabeça.  Foi dado o nome oficial de Amphioxus lanceolatus,  que significa forma de lança dos dois lados.

Amphioxus

Esse animal desempenha um papel importante nas discussões sobre o desenvolvimento dos animais no decorrer da evolução. O Amphioxus é amplamente distribuído nas águas do mar e pode ser encontrado nos mares europeus tanto nas águas do Mediterrâneo quanto da Escandinávia.  O desenvolvimento desse animal vem sendo estudado em relação aos dos Vertebrados.  O Amphioxus apresenta o mais baixo desenvolvimento dos Vertebrados.  Por esta razão,  Ernst Haeckel ficou tão interessado nesse animal.  Muitos pensamentos desse cientista sobre o desenvolvimento embrionário foram baseados no estudo do Amphioxus,  denominado por Haeckel de  "o mais nobre ancestral do ser humano",  pelo fato dele formar uma ponte muito estranha entre os Invertebrados e os Vertebrados.
O embrião dos animais superiores passa por um estágio semelhante ao do Amphioxus.  Esse animal possui a estrutura mais simples possível.  O sistema ventral,  que abrange toda a parte intestinal,  está situado na parte de baixo.  Na parte de cima está o sistema dorsal que consiste de nervos que formam um tipo de medula espinal.  Esse é,  na realidade,  o plano fundamental de anatomia encontrada no tronco do ser humano.  O sistema nervoso está nas costas com o esqueleto construído em torno da coluna vertebral.  O esqueleto dos Vertebrados se cristaliza em torno da coluna vertebral.
Se colocarmos um fio dentro de um recipiente contendo uma solução de sal,  haverá uma deposição desse mineral em torno desse fio.  Da mesma maneira os ossos e a medula espinal vão surgindo nos Vertebrados.  Durante o desenvolvimento embrionário da medula espinal,  o sistema ósseo vai se formando em torno dela.  É interessante descobrir onde a coluna vertebral aparece pela primeira vez.  A coluna vertebral é uma característica dos Vertebrados.  Existe um grande abismo entre os Vertebrados e os Invertebrados.  O Amphioxus é a ponte entre esses dois pólos.  É estranho que os parentes mais próximos do Amphioxus não sejam os peixes,  mas sim as Ascídias.  Podemos descrever o Amphioxus mencionando sua semelhança com os embriões dos animais superiores que nadam livremente,  os Vertebrados.  A mesma descrição é válida para as formas embrionárias das Salpas.
Normalmente o embrião de um vertebrado se desenvolve no sentido de se estruturar segundo uma forma superior.  Tanto nas Ascídias quanto nas Salpas,  a forma normal do animal adulto é menos perfeita do que a forma embrionária.  O desenvolvimento não se realiza para cima,  mas para baixo,  ocorrendo uma degeneração.  Uma evolução que caminha no sentido ascendente é sempre compensada por uma outra que caminha no outro sentido,  no descendente.
Esse fato é muito interessante e nos conduz ao estudo da embriologia.  Quando estudamos as Salpas,  não pudemos evitar que fosse mencionado o seu desenvolvimento embrionário.  O desenvolvimento da célula-ovo das Salpas,  durante seu desenvolvimento embrionário,  é semelhante àquele que ocorre nos animais superiores,  os Vertebrados.  O Amphioxus faz parte do grupo dos Tunicados.  Este grupo é composto da seguinte maneira:

Tunicados:
 
Urochordata -  Ascídias,  Salpas
Cephalochordata -  Amphioxus

Os Amphioxus em seus estágios superiores iniciais de desenvolvimento apresentam uma forma muito parecida com aquela assumida pelas larvas dos peixes e pelo embrião do ser humano em seus primeiros degraus de desenvolvimento.  Essa forma assumida pelo Amphioxus é mais elaborada do que aquela assumida pelos outros Tunicados.
Gostaria também de chamar a atenção para o seguinte fato:  nos Tunicados,  o coração bate dirigindo o sangue para dois lados diferentes.  Primeiro para um lado e depois para o outro.
Ao fazermos um estudo detalhado da Minhoca,  iremos notar que seu sistema circulatório pulsa como um coração.  Seu sistema sanguíneo é dorsal,  ou seja,  está situado na frente e envia o sangue para o lado ventral onde está situado o estômago.  O peixe tem uma disposição invertida.  Seu coração está no lado ventral e o sangue flui para a direção das costas,  para o lado dorsal.  No ser humano,  isso também ocorre.  A grande artéria está na parte da frente do corpo e o sangue flui para a parte de trás.  Essa direção do movimento sanguíneo está relacionada com a posição do Sistema Nervoso.
As minhocas são invertebrados,  e possuem o sistema nervoso no lado ventral,  o que corresponde à nossa parte da frente do corpo.  Essa disposição muda de local no peixe e nos demais vertebrados.  O ponto de transição aparece quando os animais começam a transformar o corpo invertebrado durante os posteriores estágios do desenvolvimento embrional e subir os primeiros degraus desenvolvendo uma espinha dorsal e uma corda espinal.  Nesse ponto do desenvolvimento embrionário ocorre um fato importante:  o sistema sanguíneo não é capaz de decidir em que direção o sangue deve fluir.  O sangue,  durante este estágio embrionário,  flui ora em uma direção e depois de um certo tempo em uma direção oposta.  No caso do Amphioxus as pulsações seguem uma estrutura anelar,  ou seja,  o sangue flui de maneira circular.  Nesse caso,  a direção do fluxo sanguíneo já foi decidida.  No caso das Salpas,  a circulação flui nas duas direções.  Um determinado número de pulsações dirige o sangue em uma direção,  depois esse fluxo se inverte e o sangue flui em uma outra direção.
É sempre difícil compreender como uma entidade tão complicada como um animal pode se desenvolver a partir de uma simples célula.  Essa formação se inicia com uma célula-ovo esférica.  Depois essa célula vai se dividindo até formar uma estrutura denominada GÁSTRULA,  cuja forma é a de um saco arredondado.
As Salpas mostram isso de uma maneira bastante nítida.  Essa forma de gástrula também pode ser vista nos Celenterados.  Por que esses seres vivos nos revelam tão claramente essa forma de gástrula semelhante a um saco aberto?  Esse é um fato muito interessante e que deve realmente,  ser observado.  Essa forma de gástrula não existe mais no animal adulto,  mas se forma durante o desenvolvimento embrional.  As Salpas são anormais pelo fato de assumirem durante o desenvolvimento embrionário uma forma mais perfeita do que aquela assumida por esse animal no estágio adulto.  Essas formas embrionárias nos revelam que esse animal assume os estágios arquetípicos característicos dos animais superiores.  As Salpas nos demonstram um fato interessantíssimo que é o de algumas partes desse animal regredirem aos estágios iniciais do desenvolvimento embrionário.  Nesse grupo de animais o estágio embrionário tem mais importância do que a forma adulta.  As Salpas mostram formas embrionárias em um estágio bastante inicial de desenvolvimento.  As Ascídias,  as Salpas e os Amphioxus são animais que nos permitem a contemplação de todo o processo de evolução do reino animal.

Diagrama do Amphioxus

Haeckel enfatizou a importância do estudo do Amphioxus lanceolatus,  das Salpas e das Ascídias.  Esse grupo produz embriões com forma semelhante aos embriões dos animais superiores e do ser humano.  Isso nos revela que esses seres são os remanescentes de um processo de evolução intimamente ligado com o do ser humano,  porém eles caíram fora da evolução tornando-se animais que permaneceram nos estágios evolutivos iniciais.
Tais exemplos nos revelam que todas as fases da evolução animal nos mostram os diferentes degraus da evolução humana,  mas essas fases evolutivas do reino animal são acompanhadas de um processo de queda que leva a uma decadência semelhante.  Nos Protozoários o sistema celular é eliminado,  sai fora da evolução.  Nos Celenterados é o sistema digestivo quem realiza esse processo.  Nos Echinodermados a digestão se realiza fora do animal e predomina o sistema circulatório.  Nos Proto-cordados é eliminado o processo embrionário que conduz a uma evolução mais avançada.
Nos Protozoários,  Celenterados e Echinodermados encontramos uma evolução sucessiva das três principais camadas de tecido.  Nos Proto-cordados essas três camadas estão combinadas para produzir o arquétipo de toda a evolução embrionária.  Esse grupo zoológico guarda em si o segredo do ser animal ir se tornando uma entidade individual.  É por esse motivo que Ernest Haeckel ocupou-se tanto com os Tunicados em seu estudo da evolução do reino animal.  Ao estudarmos esse desenvolvimento iremos notar que existem processos ascendentes e descendentes e não uma ascensão evolutiva linear.
Os Tunicados possuem uma característica bastante peculiar.  Apenas esses animais eliminam tunicina que é uma substância quase idêntica à celulose que normalmente se encontra apenas no reino vegetal.  Mesmo nesse caso,  surge diante de nós uma forma totalmente oculta,  uma imagem arquetípica da evolução embrionária.  Nos seres unicelulares muito primitivos,  não é sempre que existe uma distinção nítida entre vegetal e animal.  Existem plantas-animais e animais-plantas.  Os Tunicados preservaram suas características como uma memória de épocas muito antigas.
Por que não podemos perceber uma imagem clara da evolução embrionária dos animais superiores?  Isso é devido ao fato desses animais terem se distanciado muito da imagem embrionária arquetípica.  Eles não retiveram dentro de si a evolução embrionária.  Mas existe um grupo de animais que tem isso dentro de si.  Os animais que pertencem ao Phyllum Tunicata representam imagens do desenvolvimento daquilo que vem à existência,  os embriões.  O Amphioxus recorda muito as formas jovens das Ascídias ou das Salpas,  porém permanece durante toda a sua vida na forma embrionária.
Esses seres nos levam a contemplar a evolução da anatomia dos Vertebrados.  Eles possuem inicialmente os rudimentos de todos os sistemas orgânicos presentes nos animais superiores.  As Ascídias e os Amphioxus são formações embrionárias nadando livremente no mar.  Eles não podem ser comparados com nenhum outro grupo de animais.
Devido a tudo isso que aqui foi exposto,  justificamos a decisão de termos tomado esse grupo tão raro de animais como objeto de nossos estudos.

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